domingo, 20 de dezembro de 2009

O dia em que o Histórias Esquecidas foi esquecido.

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Mudei de endereço!
Já tem um tempinho que estou no http://www.alinevalek.com.br/blog!
Vem me fazer uma visitinha quando puder? ;)


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sábado, 30 de maio de 2009

A carne só é fraca quando o consumismo é voraz


Acabei de assistir uns trechinhos do documentário A Carne é Fraca, promovido por um instituto que acredita no vegetarianismo. O que eu quero abordar aqui foge um pouco (ou quase completamente) da proposta desse blog, que basicamente é um espaço para a imaginação e a discussão de temas relacionados à criação e literatura. Mas é onde minha voz tem algum espaço, e se eu estou trazendo aqui é porque acredito que seja pertinente e interessante para reflexão e discussão; além do mais, eu que mando aqui XD (apelou).

Antes que alguém me pergunte.. Não, eu NÃO SOU vegan!

Engraçado eu ter assistido por acaso esse documentário, justamente no dia seguinte que terminei de assistir um outro documentário, o Super Size Me, nas aulas da Bárbara. É a história real de um malucão que decide comer McDonald's por um mês inteiro (ele não podia comer nada que não vendesse no McDonald's, até mesmo a água), mostrando os efeitos desse tipo de alimentação no organismo humano. É claro que é um over efeito, já que foi conseguido através de uma dieta intensiva sem nenhum equilíbrio; mas se a gente pensar que a gente se envenena com aquilo regularmente durante nossa vida inteira, então estamos diante de um quadro bastante realista.

Não acredito que eu vá parar de comer no McDonald's ou no Burger King depois de ter visto no filme que o fígado do cara vira um patê; até porque eu já frequento muito pouco esses lugares - mas não abro mão daquela batatinha frita, mesmo sabendo que nem é batata de verdade, como aquela que a gente descasca, corta e frita em casa. Mas admito que tenho bons motivos para começar a abolir esses itens da minha alimentação (inclusive o "Dogão da Tia", que faz a nossa alegria na frente da faculdade). 

Minha educação alimentar foi muito bem constituída e reconheço o valor de pratos equilibrados. Mas não é a questão da saúde que eu quero abordar, até porque eu não sou um bom exemplo (sedentarismo, açúcar, amante de massas, histórico de anemia, etc, etc), e mesmo quando busco me alimentar bem, esses pequenos luxos de comer lanches "rápidos" e poucos saudáveis causam efeitos que parecem invisíveis, mas estão aqui, acontecendo em algum lugar do meu organismo.

Partindo para uma outra face desta mesma moeda: o documentário A Carne é Fraca mostra, basicamente, como funciona a indústria que traz a carne até a nossa mesa, no processo de criação e abatimento dos animais. Os bois, quando são levados ao matadouro, conduzidos por corredores estreitos até o lugar onde levarão um tiro da pistola de ar bem no meio do crânio (o corredor da morte) sentem o que está acontecendo e entram em pânico (há uma cena em que um boi está andando pelo corredor e de repente começa a recuar). Esse pânico libera substâncias tóxicas no organismo do animal, que continuam presentes na carne que consumimos. O documentário mostra também granjas onde as galinhas, em constante situação de stress, enclausuradas em gaiolas minúsculas, sem espaço para ciscar, não podendo tomar banho de areia, ou sem a presença de um galo, começam a apresentar distúrbios mentais e viram canibais. Por isso os pintinhos têm a ponta de seus bicos cerrados, para que quando cresçam, não se devorem uns aos outros. Ainda é chamado a atenção para a dor dos peixes, que emboram não possam se lamentar ou expressar sofrimento, morrem de uma forma terrível quando são tirados da água (por asfixia ou por descompressão); o que me fez lembrar de uma frase que aparecia quando eu encerrava o meu emulador de Super Nintendo: "It's okay to eat fish, cause they don't have any feelings. Poor bastards." Eu acho engraçado. Mas aí eu lembro que a essência desta frase é que tranquilizava a consciência dos cidadãos de bem a respeito da escravidão. Eles achavam que tudo bem escravizar os negros, aquela raça "diferente", que não podia ter sentimentos nem alma, e portanto podiam transformá-los em animais, em objetos. E veja se não é o que acontece hoje a respeito dos animais, apenas insumos de uma lógica de produção em massa. Coloque a ração por um lado, e tire o ovo pelo outro. Simples assim.


Você é capaz de dizer de qual parte do boi é feita o hamburger?
Ou de que parte do frango é feito o nugget? Sabe?

Eu estava almoçando quando assisti isso. E não vou dizer que fiquei com nojo ou passei a expressar compaixão pela carne moída que eu estava mastigando. As informações que o filme apresentou e as questões para as quais ele chamou a atenção são super pertinentes, mas por outro motivo, bem diferente do objetivo do filme - que era basicamente promover o vegan way of life

Eu sinceramente não concordo com o vegetarianismo. E ele sempre vem com aquele discurso apelativo, da mesma forma que o governo faz no verso das embalagem de cigarros. Eles tentam convencer usando uma terapia de choque, despertando repulsa e compaixão. Tentem visitar o perfil de algum vegan no orkut e veja como eles abusam de sanguinolência e metáforas apelativas. Nada contra quem adota esse tipo de vida, acho que é uma escolha pessoal muito válida e admirável, até por questões de saúde. Mas quando eles tentam te convencer que você é um monstro porque se alimenta de bichinhos tão adoráveis, eles são uns verdadeiros malas, bem parecidos com fanáticos religiosos que você costuma evitar a todo custo.

[ainda tenho algumas teorias para acreditar que humanos vegetarianos são uma anomalia na cadeia alimentar, mas melhor deixar isso para outro post].

Acredito que toda essa questão envolve, mais do que saúde e outros mimimis que os vegetarianos adoram defender, uma questão sociológica. Aham. 

O problema não está em comer animais, porque isso faz parte da natureza humana. Somos predadores, não monstros. Evoluímos assim. E embora os vegetarianos tentem mostrar o contrário, ignorando todo um processo evolutivo tão evidente cientificamente, a verdade é que o ser humano só é o que é, e só chegou onde chegou porque é carnívoro. Ele pode não ter mandíbulas adequadas para triturar a caça, nem visão noturna e outras coisas próprias dos predadores mais mortíferos. Mas também não possuímos sistema respiratório adequado para ficar debaixo d´água, e no entanto nadamos. Também não possuímos asas e aerodinâmica, mas voamos. Não possuímos força, mas conseguimos destruir coisas como rochas. Não possuímos pelos que nos protejam do frio, mas ainda assim podemos habitar lugares gelados. E o nosso desenvolvimento como caçadores nos primórdios de nossa existência foi o primeiro passo para conseguirmos ser tão adaptáveis. Não precisamos de garras ou mandíbulas afiadas porque criamos ferramentas para perfurar a carne. E não começamos a criar coisas como a lança por escolha ou capricho, o que os vegans hoje podem fazer. Começamos a caçar por necessidade; e se não fosse pelo consumo da carne e pela necessidade de caçar, nossa constituição física e engenhosidade não seria tão diferente dos primatas que só comiam frutinhas. Muito do progresso da humanidade só foi possível pelo fato de sermos carnívoros, vegans tolinhos. [mas enfim, divago. Ainda há muito mais o que falar sobre isso, muitos aspectos antropológicos para considerar. Um dia escrevo um livro sobre isso XD]

Portanto, essa questão trata-se de um problema sociológico; e é disso que trata o Super Size Me, se você prestar bem atenção. Morgan Spurlock não precisou abusar de demagogia e nem apelar para a apologia no sentido de abolir completamente o fast food da sua vida. Aquela comida faz um mal danado, isso é verdade. Mas porque faz tanto mal? O que Morgan quis dizer com esta sua experiência? Ele tentou mostrar que faz um fucking mal porque as pessoas consomem muito mais do que deveriam (transformando cidades como o Texas nas mais obesas do mundo) - e que é isso que as grandes empresas como McDonald´s querem. Entupir as pessoas de lixo. Fazerem consumirmos mais aquela comida processada, porque quanto mais comemos, mais eles enriquecem. Fazerem amarmos muito tudo isso.


Pode não parecer... mas a gente
já conseguiu viver de outra forma!

Enquanto uns preferem apontar o carnivorismo como o problema, eu digo que o problema é esse modelo de sociedade que criamos para nós (e que ei, até os vegans fazem parte, porque eles podem não consumir carne, mas consomem uma outra tonelada de coisas como carros, papel, roupas, eletros, etc, etc, não é mesmo?). Todos os dias, recebemos milhares de mensagens em vários níveis diferentes, que nos dizem que precisamos consumir. E consumimos não apenas por necessidade. Consumimos para fazer parte de um grupo. Para podermos ser definidos social e individualmente. E a gente passa a ignorar absolutamente tudo em nome disso - pois não aceitamos consumir apenas produtos, mas também mensagens abusivas que continuam reproduzindo preconceitos de uma sociedade doente e ainda garantindo que as novas gerações continuem esse ciclo decadente e insustentável.

Parece até piada: eu defender este discurso por absolutamente não concordar com esse sistema que rege a sociedade, e, vejam só, ao mesmo tempo ser publicitária. Gostaria muito de acreditar que não, que nem todo publicitário é um macaquinho do mercado e que ainda há aqueles que enxerguem e entendam as consequências do tipo de sociedade que estamos construindo. Mas ainda me sinto sozinha. E até ridícula na tentativa de nadar contra essa maré.

Mas, voltando à questão da carne: sou carnívora convicta, e aquela bela peça de carne suculenta recém-saída da churrasqueira desperta os meus instintos mais selvagens. Aliás, a nossa cultura de tornar o ato de comer um "evento social", onde as pessoas se reúnem e são felizes, remontam dos nossos antepassados mais pré-históricos, quando a tribo se reúnia em torno da carne por ser resultado de uma empreitada de difícil sucesso, algo muito episódico. Envolvia todo um ritual de preparo da caça, e o ato da caça em si era arriscado e muito difícil. A carne do animal morto era considerado um triunfo, em nome da sobrevivência da nossa espécie, e como não era assim tão fácil caçar, não era sempre que havia carne na mesa - mesmo quando o homem passou a criar animais para seu sustento. Não é tão simples assim comer carne, e quem tem cultura de fazenda sabe disso: são ocasiões especiais que pedem o abatimento de um animal para fazer aquele baita banquete. É preciso alimentar os animais, cuidar deles, lhes dar espaço, esperar que cresçam, esperar que reproduzam, e esperar a época certa para abatê-los - o que não é tarefa fácil só porque não sejam animais selvagens. É preciso ter força e talento para saber abater um animal. Os vegans podem espernear, mas é isso mesmo. Não há nada de errado em matar um animal para se alimentar dele, e nem vou me aprofundar nessa questão aqui [aguardem meu livro! ;D], afinal, a vida [e a cadeia alimentar] não são como nos desenhos animados onde os predadores são sempre os vilões. Mas para quem ainda sustenta argumentos baseados nesse ponto de vista maniqueísta e infantil, só digo uma coisa: Pare um pouco de assistir Coyote e Papa-Léguas e vá assistir Discovery Channel.

Há pelo menos duas semanas, alguém postou no twitter

"Nada mais tosco hoje em dia do que alguém caçar. Putz! Não sabe que vende de tudo no supermercado da esquina?! #prontofalei"
Tá certo que hoje em dia a caça não é mais necessidade, e acho que quando essa pessoa tuitou isso estava pensando em quem caça por hobby ou por qualquer outro motivo que não o sustento. Além do mais, tudo que a gente come não é mais algo caçado, e sim criado em cativeiro. No máximo, comemos peixe quando é pescado em rios ou nos mares, e vá lá. Mas duas coisas me chamaram muito a atenção nesse comentário: 1) às vezes a gente fica tão imerso nessa lógica capitalista de consumo que desconsideramos completamente que ainda há quem caçe para o próprio sustento (os nossos índios, por exemplo. Eles ainda não foram extintos, tá!)... e 2) a gente fica tão imerso nessa lógica capitalista e de consumo que passa a aceitar o "supermercado da esquina", o "shopping", o "McDonald's", ou o seja lá o que for que passe cartão de crédito, como a solução para todos os problemas. Porque é fácil, é rápido (nem sempre é barato), mas tá ali. Sempre pronto.

E é esse mesmo senso que leva tantos americanos a se entupirem de fast food diariamente. Pra quê cozinhar? Não sabe que tem tudo no McDonald's ali da esquina? E assim se perdeu toda aquela coisa ritualística de comer carne. Perdeu-se o melhor do nosso instinto carnívoro nesse processo, em que apenas consumimos aquela massa processada de carne e sei lá o quê mais que nem sabemos de que parte do animal veio. Que nem nos lembramos que já fez parte de algo vivo. E é que ficamos embrutecidos, em que o sofrimento e a morte deixam de fazer sentido para essa nossa lógica hedonista de consumir para sentir prazer. Porque isso é bem mais fácil que caçar e matar ou depenar a galinha da sua fazenda, já que tem de tudo no supermercado ali da esquina. 

É o consumismo que nos torna monstros selvagens, insensíveis à morte e sofrimento dos seres vivos. Insensíveis até mesmo ao que nos envenena e destrói nosso organismo. E não o fato de comer carne. Ainda considero mais insensível aquela pessoa que compra tudo no freezer no supermercado ali da esquina do que a pessoa que tem que matar o porco e sangrar para poder fazer o jantar da família na fazenda. Porque a primeira já perdeu a consciência de que aquilo precisou ser morto, e que as coisas não são tão simples como prevê a lógica industrial (muitas crianças nem sabem que leite vem é da vaca, e não da caixinha).

Seria lindo se a sociedade pudesse evoluir para aquela dos indígenas nativos do Brasil antes de começarem a foder com tudo. Cultura de subsistência. Caça o que vai comer. Pesca o que vai comer. Planta o que vai comer. Mas aí seria tão ingênuo quanto a filosofia vegan. Porque o vegetarianismo não é a solução pra nada além do nível pessoal - ou seja, é legal para quem escolheu isso e tal, mas não é a solução para a sociedade. E nem para os bichinhos que eles tanto defendem.

A essa altura do campeonato, também acredito ser inviável retornar à uma cultura de subsistência, até porque criamos graus de especialização. Eu como publicitária, não preciso saber como plantar arroz ou como projetar carros. E na cultura de subsistência, as pessoas tinham que saber de todo o processo, de toda a atividade necessária para a sobrevivência. Tinham que saber se virar sozinhas. Hoje é impensável um cidadão perder seu tempo aprendendo sobre a produção de tudo que precisa para sobreviver, afinal, a nossa tecnologia só conseguiu atingir o ponto estratostônico que conhecemos hoje porque alguns camaradas puderam estudar e se especializar em algo enquanto alguém pensava no fornecimento de energia elétrica para eles, ou na produção de arroz, ou ainda na fabricação de roupas.

[entretanto, é o tudo que eu queria: viver como índia. Quando eu tiver filhos, pretendo ir morar numa fazenda isolada do mundo, longe do alcance das mensagens publicitárias e assim proteger a cabeça das minhas crianças XD]

Mas utopias à parte... o filme Super Size Me sintetiza bem melhor a mensagem que deve ficar de reflexão a respeito dessa questão. É saudável para os nossos organismos, para as nossas mentes e, acima de tudo, para a nossa sociedade esse modelo de vida que estamos seguindo, sejamos vegans ou carnívoros? Até quando podemos sustentar esse modelo de sociedade destrutivo, hedonista, insensível, que nos torna cegos em busca do lucro ou da aceitação através do consumo?

No documentário, Morgan submeteu-se a essa experiência por apenas um mês (o que quase o matou), mas pode parar. Ele teve uma escolha. Nós também. Nós escolhemos nos afundar e nos consumir em algo que não vai durar por muito tempo; e quando a voracidade do consumismo e do capitalismo entrar em colapso, precisamos saber de que forma vamos levar isso adiante. Se sobrevivermos.

E então deixar logo de ser esta espécie monstruosa e insensível: os consumívoros.


quarta-feira, 13 de maio de 2009

De mudança



Reta final do semestre, e a pobre aspirante a escritora que nas horas vagas é publicitária vê-se consumida entre tantos trabalhos, provas e projetos quanto sua cabecinha desnorteada é capaz de lidar (ou não). A jornada na busca por trabalho continua, em paralelo à construção do meu portfólio, que preciso terminar o mais rápido possível se não quiser continuar engrossando as estatísticas de desemprego no país. Enquanto isso, o Flickr, DevianArt e este blog ficam às moscas.

É triste dizer isso. Mas reconhecer é o primeiro passo para eu conseguir agir e finalizar tudo. O segundo passo é conseguir mais oito braços e particionar o cérebro para dar conta de tanta coisa ao mesmo tempo.

Então não sejam maus comigo. Tem sido difícil manter este blog atualizado, embora eu tenha terminado de escrever Desinsônia Crônica há mais de uma semana. Não postei porque estou preparando um acabamento bacana, para ficar mais interessante para ler do que aqui no blog. É segredo, mas vai estar todo ilustrado, então acho que vai valer esperar um pouquinho. ;)

Mas o que eu queria mesmo dizer é que o Histórias Esquecidas vai sofrer uma repaginação. Vou migrar para o meu próprio domínio agora, e eu peguei tanto apego e carinho pelo projeto deste blog que acho que ele merece ser promovido e ganhar um espacinho mais dele. Chegou a hora desse pokémon evoluir e alçar uma trajetória mais ambiciosa from now on.

Além da ajuda do meu personal webdesigner (a quem devo agradecer inclusive pela paciência e coragem de ter começado a me ensinar a arte da fotografia), conto com a ajuda (e paciência!) de todos os poucos e estimados leitores que colecionei até agora. Ninguém vai precisar carregar as caixas da mudança; mas todos estão convidados para a recepção na inauguração do meu novo "puxadinho".

Nos vemos lá!

Beijos,

Aline.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Marte e Vênus: um só planeta.


- Aline! Que bom que veio!

- Ora, e eu ia perder a oportunidade de matar saudades? Como você está, moço?

- Vou muito bem! Vamos sentar ali?

- Claro.

- Sabe, é legal estar aqui conversando com você! Muitos caras acham difícil entender que eu goste tanto da companhia de uma menina, mas tenho culpa se eu não consigo achar que a vida se resuma a beber cerveja e falar de futebol ou da anatomia de celebridades?

- (risos) Como se conversas masculinas também devessem obrigatoriamente incluir gostosonas e futebol.
 
- Uma vez falei isso para um conhecido e ele perguntou se eu preferia conversar sobre novela e salões de beleza... Como se ele achasse que é obrigatório uma mulher só pensar nessas coisas, entende?
 
- Sério, eu não sei como a maioria dos homens não se ofende... não obrigada, traz só um guaraná? ...Obrigada!

- Pra mim uma Pepsi Twist, por favor.

- Então ....não sei como os homens não se ofendem com esse estereótipo do próprio machismo que sustentam. Porque o machismo não só transforma mulheres em objetos, mas também faz parecer que homens não têm uma cabeça de cima. Acho que é por isso que muitos homens não conseguem ter amizade com meninas, estão sempre achando que elas não passam dos atributos físicos que têm, ou da capacidade de dissertar sobre o último episódio da novela da Globo... Legal esse barzinho, nunca tinha vindo aqui.

- Sim, também gostei...  Bem, Aline, eu acho que isso tudo começa porque as pessoas simplesmente aceitam o rótulo que a sociedade gruda nelas assim que nascem - não pensam na possibilidade de ser diferentes.
 
- Hm. Exemplo?

- Parece que a "macheza" está condicionada a ser uma criatura óbvia, primária, sem nenhuma idéia nova ou interessante, que pensa que amizade só é possível com outros homens, porque mulher é só pra "transar", e acha que qualquer conversa sobre pensamentos ou sentimentos é "frescura".  E o pior é que parece ter sido assim por tanto tempo, que até as mulheres acabaram assimilando essa noção: por mais que passem maus pedaços ao lado de caras assim, acham que não tem jeito, porque "homem é assim mesmo".

- Nem me fale. E quando a mulher que vai além de um corpinho bonito e que consegue estabelecer conversas legais e interessantes, acaba se integrando ao grupo de amigos de um cara? É claro que já depende do cara. Mas por ser uma menina em um grupo de amigos exclusivamente masculino, eu já fui considerada por eles como "homem". E vou te dizer uma coisa, Marcos... não existe coisa mais repugnante do que ser considerado um elogio e uma atitude de respeito destituir a pessoa do que ela realmente é para ser considerada uma "igual".
 
- Puxa!... E te dou inteira razão de ficar chateada com isso! Isso nada mais é do que um preconceito velado, ou até inconsciente, mas, mesmo assim, um preconceito! E não só quando um homem diz a uma mulher que ela é "como se fosse homem". É a mesma coisa dizer a um negro que ele tem "alma branca", ou a um velho que ele tem "espírito jovem" - e 
achar que está fazendo um elogio!...Ao contrário, eu acho esse tipo de declaração ofensivo à classe de pessoas a quem se dirige, pois o que fica implícito nelas é que o homem é melhor que a mulher, que o branco é melhor que o negro, e que o jovem é melhor que o velho!

- Isso mesmo! Por isso fiquei tão ofendida. Foi como ele ter dito: "não te considero uma igual, porque não quero me comparar a uma mulher. Para sermos iguais, você precisa ser homem".

- Sei exatamente do que você está falando, e acredite, como em tudo na vida, essa moeda tem dois lados... Também é horrível para um homem perceber que, para a maioria das mulheres, um cara que consiga conversar com elas, que as entenda e respeite pelo que são, 
justamente por causa disso deixa de ser encarado como homem!
 
- Sério que isso acontece?

- Pior que sim. Tipo, as moças se queixam da falta de sensibilidade masculina, dizem que o companheiro ideal seria um cara sensível, inteligente, gentil, romântico - mas quando topam com um, relegam-no à condição de 
amiguinho e continuam a se apaixonar por ogros, porque, de tanto serem expostas à noção que a sociedade faz do que seja ser "homem", não conseguem enxergar um cara como ente masculino, a menos que ele aja como um ogro!
 
- Onde tá escrito mesmo que homens e mulheres não podem ser amigos juntos sem deixar de ser o que são? Não se pode deixar de considerar homem um cara que é mais sensível que a média troll da população. Da mesma forma, não se pode deixar de considerar mulher uma garota que goste de quadrinhos e RPG. Porque sensibilidade não é uma característica exclusiva feminina, é uma característica humana! Da mesma forma, coisas como hq's e videogame é coisa da cultura humana, e não masculina. Aliás, ali do outro lado da rua tem um fliperama. Vamos lá? Compro umas fichas.

- Podemos ir sim, mas já vou avisando que devo estar enferrujado, faz anos que não entro num!

- Não tem problema, eu pego leve. Ei, moço! Deu dois reais aqui o meu, né?

- Não se incomode, eu pago... Está vendo? Isso é outra aspecto do que a gente falava há pouco. Pequenos gestos de cavalheirismo não machucam ninguém, independente do sexo. Conheço muita gente - tanto homens quanto mulheres - que acham esses gestos um assunto complicado, o que na minha opinião, é pura insegurança de ambos os lados! Enquanto o cara fica pensando: "Será que fica 'esquisito' se eu abrir a porta do carro para ela?", a mulher, se for do tipo paranóico, pode, por sua vez, pensar: "O que esse cara tá pensando, que eu não sou capaz de abrir a porta sozinha?"
 
- Olha... Preciso 
mesmo te apresentar para alguns dos meus amigos trolls!

***

Post escrito em parceria com Marcos, depois de um desabafo meu a respeito de discriminação sexual... o que acabou repercutindo em uma baita conversa, e na descoberta dos vários lados da moeda.

Dá mesmo pra acreditar na igualdade sexual? Quais são as consequências de uma sociedade construída com conceitos de opressão e inferiorização das mulheres (que sim, persistem nos dias de hoje e de formas bem cruéis sim senhor!)? Homens e mulheres, por conta desses mecanismos da sociedade, estão se distanciando como seres humanos? Será que ainda dá para acreditar que Marte e Vênus são um planeta só?


"Tudo o que a gente faz deveria envolver uma boa história"

Foi no twitter do Grupo Paprika, indicação do Danilo, que encontrei esse slide muito bacana que relaciona a carreira e o trabalho de Planejamento em agências de publicidade com o talento de se contar histórias.

Sendo você aspirante a Planejamento, leia. Sendo você envolvido com publicidade, leia. Sendo você da área da comunicação, leia. Sendo você escritor, leia. Sendo você qualquer coisa que envolva o trabalho com a criatividade, leia. E se não for nenhum desses, leia também, você não vai estar perdendo nada e ainda vai aprender várias coisas legais para aplicar na sua vida.

http://www.slideshare.net/ddtomazo/storyplanning-planejadores-e-boas-histrias-fazem-a-diferena-presentation?src=embed

;)

(Faz parte do slide um exercício muito bacana: contar uma história em uma lista do tipo "Top 5". O tema que os caras da agência escolheram foi "O Poderoso Chefão". Vale a pena conferir.)

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Onde está a música

[Esse sketch é a refação do primeiro exercício do meu curso de redação, que você lê aqui. Comparem e vejam o que acham, este eu apresento no sábado.]

***

Onde está a música

Um headphone em cada ouvido, e entre os dois, um mundo de barulho. Lá fora, o barulho do mundo. Sons de todas as alturas, vozes, entonações, ritmos e estilos compondo ruídos que não se desligam, não se separam, não se definem, às vezes nem se percebem. No meio de todo esse emaranhado estranho, difuso, os sons falam um idioma todo próprio, nem meu nem seu, mas que às vezes entendemos muito bem... outras não. É tanto ruído, afinal. Até quando tudo silencia, ainda haverá ruído para nos dizer: escuta!

Você ouve? Ouça, até no silêncio seu corpo continua a sussurrar os barulhos do mundo, e seu ouvido ainda estará lá para perceber a respiração ruidosa e a palpitação vibrante de uma melodia sem fim. O ouvido estará lá para a música e para o silêncio. Mas e se não estivesse?

Conheci um garoto surdo. Era alheio a todo esse universo sonoro, incapaz de definir o vácuo do silêncio onde habitava por nunca ter conhecido barulho algum que o fizesse valer. Quando éramos pequenos, eu escolhia o meu vinil colorido favorito e cantava junto quando a música começava; ele encostava a mão na caixa de som. E então ele ouvia. Quando cresceu, passou a ir em shows de rock e virou fã de Sepultura. A potência da vibração do show ao vivo era a música que seu corpo todo ouvia, pois nem a música nem o silêncio precisam do ouvido para chegar até nós.

O ritmo dos graves e agudos acompanham a pulsação dos batimentos cardíacos e a frequência das ondas cerebrais. Reverberam pelo corpo todo. A música já está ali, dentro da gente. O rapaz surdo nunca deixou de ouvir os barulhos do mundo, e vai continuar ouvindo. Ele sabe onde a música está. E a música estará lá mesmo quando tudo silenciar.

terça-feira, 14 de abril de 2009

5. Eu e Morte

Nunca se sabe qual será o momento derradeiro, então toda hora é hora para ensaiar os argumentos mais performáticos para quando ela estiver lá. Eu devia ter me lembrado disso antes de atravessar a rua, mas depois que atravessei, não me lembro de mais nada.


Não me lembro se enquanto eu estava no chão sem respirar eu cheguei a sentir o cheiro dos cabelos negros como uma ninhada de corvos. Não me lembro se ela me tocou ou se só ficou me olhando de longe, com aquele sorriso branco e reluzente das pessoas que sabem esperar com calma. Não lembro sobre o que falamos, e não lembro se insisti para ir com ela depois de ter visto o estado deplorável do meu corpo (se é que eu vi, como acontece nos filmes).


Será que tivemos uma longa conversa? Ou será que continuo conversando com ela todos os dias quando experimento a estranha sensação de estar viva? Por que não penso mais nela? Por que não me lembro e nem me importo com a presença dela se é isso que torna a vida tão mais real? Ou será que alguma parte de mim ficou lá no hospital quando despertei e passei a vê-la cruzando os corredores a cada instante?


Talvez ela goste de mim. Na verdade, ela gosta de todas as coisas vivas. E como tudo converge para ela no final, todas as coisas também gostam dela, embora tenham medo.

Medo como se estivéssemos no útero, sabendo que devemos passar por aquele canal estreito para um lugar desconhecido e abandonar o conforto do mundo que já conhecemos – e invariavelmente, é o que acontece.

Até esse dia chegar, é melhor se preparar para ter uma boa conversa com nossa amiga de todos os dias, e eu deveria me lembrar disso sempre. Nunca se sabe, afinal.


“É apenas isto: se você vai ser humano, têm um monte de coisas no pacote: olhos, um coração, dias e vida. Mas são os momentos que iluminam tudo. O tempo que você não nota que está passando... é isso que faz o resto valer.” [Morte, Neil Gaiman]


***

PS: Arte por Dave McKean.