
domingo, 20 de dezembro de 2009
sábado, 30 de maio de 2009
A carne só é fraca quando o consumismo é voraz
Acabei de assistir uns trechinhos do documentário A Carne é Fraca, promovido por um instituto que acredita no vegetarianismo. O que eu quero abordar aqui foge um pouco (ou quase completamente) da proposta desse blog, que basicamente é um espaço para a imaginação e a discussão de temas relacionados à criação e literatura. Mas é onde minha voz tem algum espaço, e se eu estou trazendo aqui é porque acredito que seja pertinente e interessante para reflexão e discussão; além do mais, eu que mando aqui XD (apelou).



"Nada mais tosco hoje em dia do que alguém caçar. Putz! Não sabe que vende de tudo no supermercado da esquina?! #prontofalei"Tá certo que hoje em dia a caça não é mais necessidade, e acho que quando essa pessoa tuitou isso estava pensando em quem caça por hobby ou por qualquer outro motivo que não o sustento. Além do mais, tudo que a gente come não é mais algo caçado, e sim criado em cativeiro. No máximo, comemos peixe quando é pescado em rios ou nos mares, e vá lá. Mas duas coisas me chamaram muito a atenção nesse comentário: 1) às vezes a gente fica tão imerso nessa lógica capitalista de consumo que desconsideramos completamente que ainda há quem caçe para o próprio sustento (os nossos índios, por exemplo. Eles ainda não foram extintos, tá!)... e 2) a gente fica tão imerso nessa lógica capitalista e de consumo que passa a aceitar o "supermercado da esquina", o "shopping", o "McDonald's", ou o seja lá o que for que passe cartão de crédito, como a solução para todos os problemas. Porque é fácil, é rápido (nem sempre é barato), mas tá ali. Sempre pronto.
quarta-feira, 13 de maio de 2009
De mudança

Reta final do semestre, e a pobre aspirante a escritora que nas horas vagas é publicitária vê-se consumida entre tantos trabalhos, provas e projetos quanto sua cabecinha desnorteada é capaz de lidar (ou não). A jornada na busca por trabalho continua, em paralelo à construção do meu portfólio, que preciso terminar o mais rápido possível se não quiser continuar engrossando as estatísticas de desemprego no país. Enquanto isso, o Flickr, DevianArt e este blog ficam às moscas.
quarta-feira, 22 de abril de 2009
Marte e Vênus: um só planeta.

- Aline! Que bom que veio!
- Ora, e eu ia perder a oportunidade de matar saudades? Como você está, moço?
- Vou muito bem! Vamos sentar ali?
- Claro.
- Sabe, é legal estar aqui conversando com você! Muitos caras acham difícil entender que eu goste tanto da companhia de uma menina, mas tenho culpa se eu não consigo achar que a vida se resuma a beber cerveja e falar de futebol ou da anatomia de celebridades?
- (risos) Como se conversas masculinas também devessem obrigatoriamente incluir gostosonas e futebol.
- Uma vez falei isso para um conhecido e ele perguntou se eu preferia conversar sobre novela e salões de beleza... Como se ele achasse que é obrigatório uma mulher só pensar nessas coisas, entende?
- Sério, eu não sei como a maioria dos homens não se ofende... não obrigada, traz só um guaraná? ...Obrigada!
- Pra mim uma Pepsi Twist, por favor.
- Então ....não sei como os homens não se ofendem com esse estereótipo do próprio machismo que sustentam. Porque o machismo não só transforma mulheres em objetos, mas também faz parecer que homens não têm uma cabeça de cima. Acho que é por isso que muitos homens não conseguem ter amizade com meninas, estão sempre achando que elas não passam dos atributos físicos que têm, ou da capacidade de dissertar sobre o último episódio da novela da Globo... Legal esse barzinho, nunca tinha vindo aqui.
- Sim, também gostei... Bem, Aline, eu acho que isso tudo começa porque as pessoas simplesmente aceitam o rótulo que a sociedade gruda nelas assim que nascem - não pensam na possibilidade de ser diferentes.
- Hm. Exemplo?
- Parece que a "macheza" está condicionada a ser uma criatura óbvia, primária, sem nenhuma idéia nova ou interessante, que pensa que amizade só é possível com outros homens, porque mulher é só pra "transar", e acha que qualquer conversa sobre pensamentos ou sentimentos é "frescura". E o pior é que parece ter sido assim por tanto tempo, que até as mulheres acabaram assimilando essa noção: por mais que passem maus pedaços ao lado de caras assim, acham que não tem jeito, porque "homem é assim mesmo".
- Nem me fale. E quando a mulher que vai além de um corpinho bonito e que consegue estabelecer conversas legais e interessantes, acaba se integrando ao grupo de amigos de um cara? É claro que já depende do cara. Mas por ser uma menina em um grupo de amigos exclusivamente masculino, eu já fui considerada por eles como "homem". E vou te dizer uma coisa, Marcos... não existe coisa mais repugnante do que ser considerado um elogio e uma atitude de respeito destituir a pessoa do que ela realmente é para ser considerada uma "igual".
- Puxa!... E te dou inteira razão de ficar chateada com isso! Isso nada mais é do que um preconceito velado, ou até inconsciente, mas, mesmo assim, um preconceito! E não só quando um homem diz a uma mulher que ela é "como se fosse homem". É a mesma coisa dizer a um negro que ele tem "alma branca", ou a um velho que ele tem "espírito jovem" - e achar que está fazendo um elogio!...Ao contrário, eu acho esse tipo de declaração ofensivo à classe de pessoas a quem se dirige, pois o que fica implícito nelas é que o homem é melhor que a mulher, que o branco é melhor que o negro, e que o jovem é melhor que o velho!
- Isso mesmo! Por isso fiquei tão ofendida. Foi como ele ter dito: "não te considero uma igual, porque não quero me comparar a uma mulher. Para sermos iguais, você precisa ser homem".
- Sei exatamente do que você está falando, e acredite, como em tudo na vida, essa moeda tem dois lados... Também é horrível para um homem perceber que, para a maioria das mulheres, um cara que consiga conversar com elas, que as entenda e respeite pelo que são, justamente por causa disso deixa de ser encarado como homem!
- Sério que isso acontece?
- Pior que sim. Tipo, as moças se queixam da falta de sensibilidade masculina, dizem que o companheiro ideal seria um cara sensível, inteligente, gentil, romântico - mas quando topam com um, relegam-no à condição de amiguinho e continuam a se apaixonar por ogros, porque, de tanto serem expostas à noção que a sociedade faz do que seja ser "homem", não conseguem enxergar um cara como ente masculino, a menos que ele aja como um ogro!
- Onde tá escrito mesmo que homens e mulheres não podem ser amigos juntos sem deixar de ser o que são? Não se pode deixar de considerar homem um cara que é mais sensível que a média troll da população. Da mesma forma, não se pode deixar de considerar mulher uma garota que goste de quadrinhos e RPG. Porque sensibilidade não é uma característica exclusiva feminina, é uma característica humana! Da mesma forma, coisas como hq's e videogame é coisa da cultura humana, e não masculina. Aliás, ali do outro lado da rua tem um fliperama. Vamos lá? Compro umas fichas.
- Podemos ir sim, mas já vou avisando que devo estar enferrujado, faz anos que não entro num!
- Não tem problema, eu pego leve. Ei, moço! Deu dois reais aqui o meu, né?
- Não se incomode, eu pago... Está vendo? Isso é outra aspecto do que a gente falava há pouco. Pequenos gestos de cavalheirismo não machucam ninguém, independente do sexo. Conheço muita gente - tanto homens quanto mulheres - que acham esses gestos um assunto complicado, o que na minha opinião, é pura insegurança de ambos os lados! Enquanto o cara fica pensando: "Será que fica 'esquisito' se eu abrir a porta do carro para ela?", a mulher, se for do tipo paranóico, pode, por sua vez, pensar: "O que esse cara tá pensando, que eu não sou capaz de abrir a porta sozinha?"
- Olha... Preciso mesmo te apresentar para alguns dos meus amigos trolls!
"Tudo o que a gente faz deveria envolver uma boa história"
quarta-feira, 15 de abril de 2009
Onde está a música
Você ouve? Ouça, até no silêncio seu corpo continua a sussurrar os barulhos do mundo, e seu ouvido ainda estará lá para perceber a respiração ruidosa e a palpitação vibrante de uma melodia sem fim. O ouvido estará lá para a música e para o silêncio. Mas e se não estivesse?
Conheci um garoto surdo. Era alheio a todo esse universo sonoro, incapaz de definir o vácuo do silêncio onde habitava por nunca ter conhecido barulho algum que o fizesse valer. Quando éramos pequenos, eu escolhia o meu vinil colorido favorito e cantava junto quando a música começava; ele encostava a mão na caixa de som. E então ele ouvia. Quando cresceu, passou a ir em shows de rock e virou fã de Sepultura. A potência da vibração do show ao vivo era a música que seu corpo todo ouvia, pois nem a música nem o silêncio precisam do ouvido para chegar até nós.
O ritmo dos graves e agudos acompanham a pulsação dos batimentos cardíacos e a frequência das ondas cerebrais. Reverberam pelo corpo todo. A música já está ali, dentro da gente. O rapaz surdo nunca deixou de ouvir os barulhos do mundo, e vai continuar ouvindo. Ele sabe onde a música está. E a música estará lá mesmo quando tudo silenciar.
terça-feira, 14 de abril de 2009
5. Eu e Morte

Nunca se sabe qual será o momento derradeiro, então toda hora é hora para ensaiar os argumentos mais performáticos para quando ela estiver lá. Eu devia ter me lembrado disso antes de atravessar a rua, mas depois que atravessei, não me lembro de mais nada.
Não me lembro se enquanto eu estava no chão sem respirar eu cheguei a sentir o cheiro dos cabelos negros como uma ninhada de corvos. Não me lembro se ela me tocou ou se só ficou me olhando de longe, com aquele sorriso branco e reluzente das pessoas que sabem esperar com calma. Não lembro sobre o que falamos, e não lembro se insisti para ir com ela depois de ter visto o estado deplorável do meu corpo (se é que eu vi, como acontece nos filmes).
Será que tivemos uma longa conversa? Ou será que continuo conversando com ela todos os dias quando experimento a estranha sensação de estar viva? Por que não penso mais nela? Por que não me lembro e nem me importo com a presença dela se é isso que torna a vida tão mais real? Ou será que alguma parte de mim ficou lá no hospital quando despertei e passei a vê-la cruzando os corredores a cada instante?
Talvez ela goste de mim. Na verdade, ela gosta de todas as coisas vivas. E como tudo converge para ela no final, todas as coisas também gostam dela, embora tenham medo.
Medo como se estivéssemos no útero, sabendo que devemos passar por aquele canal estreito para um lugar desconhecido e abandonar o conforto do mundo que já conhecemos – e invariavelmente, é o que acontece.
Até esse dia chegar, é melhor se preparar para ter uma boa conversa com nossa amiga de todos os dias, e eu deveria me lembrar disso sempre. Nunca se sabe, afinal.
“É apenas isto: se você vai ser humano, têm um monte de coisas no pacote: olhos, um coração, dias e vida. Mas são os momentos que iluminam tudo. O tempo que você não nota que está passando... é isso que faz o resto valer.” [Morte, Neil Gaiman]
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PS: Arte por Dave McKean.
