sexta-feira, 27 de março de 2009

O cego de Paris e o poder das palavras

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Criatividade em tempos de crise?
Bem, na palestra de quarta-feira no Almanaque de Criação, o Fernando Campos contou uma história que eu tenho que registrar aqui (claro, com uma certa ótica mais minha), embora já seja super conhecida [pois é, ainda estou nos tempos de delay de informação, que vergonha XD].


Ásperas sarjetas de Paris, nas quais pés apressados compunham passos tamborilados em seu caminho. Desviavam do mendigo, que escorado à parede, confundia à aspereza de seu rosto com suas roupas, com as paredes de pedra, com as ásperas sarjetas de Paris.
Pendurado em seu pescoço, uma placa de papelão. Quem via, passava a entender aquele olhar vago e incômodo de quem tenta sondar com os outros sentidos os acontecimentos a seu redor. Mas muitos não viam, não porque não pudessem ver, mas porque sempre é mais cômodo preferir não ver. E preferindo não ver, os passos tamborilados passavam pela sarjeta na frente do mendigo que não teve a chance de preferir ou não alguma coisa.
"Sou cego". 
Ele ouvia os passos tamborilados contra a aspereza das sarjetas de Paris. Ele ouvia as vozes. Ouvia os carros. E ouvia mais coisas também, coisas que as pessoas não costumavam prestar atenção. Mas não ouvia o som de moedas caindo em sua latinha. As horas se passavam e sua latinha de esmolas continuava emanando aquele silêncio desesperador. Passos vinham, mas ainda assim, silêncio na latinha.
Outros passos vieram e se demoraram um pouco diante do mendigo. Ele voltou seus ouvidos para a presença ao redor e clamou por uma esmola. O homem respondeu: "ao invés da moeda, posso escrever uma coisa na sua placa?"
Uma moeda por uma palavra? Intrigou-se o mendigo, que já estava acostumado ao silêncio de sua latinha, por isso nem ficou tão decepcionado. Que escreva; que mal pode fazer se mesmo capazes de ver, as pessoas não entendem?
De bom grado, o homem pegou sua caneta, e no verso do papelão riscou algumas palavras. Despediu-se do cego e uniu seus passos aos sons que se distanciavam nas ruas.
Pouco tempo depois, uma moeda fez barulho no fundo da latinha. E mais outra. Aquele tilintar fez encher de brilho os olhos mortos e vagos do mendigo - era o som que melhor preenchia aquela sarjeta áspera, como se fossem pirilampos brilhantes. Logo cada tamborilar de passos que se aproximava e demorava diante do mendigo prenunciava uma moeda depositada na latinha.
Em seguida, outra moeda, acompanhada de uma saudação jovial. Reconheceu a voz, a voz do homem que escreveu palavras em seu papelão. Satisfeito, agradecido e intrigado, o mendigo perguntou-lhe o que o homem escreveu.
"Nada muito diferente do que já estava escrito." Ele sorriu e despediu-se com seus passos tamborilando suavemente para longe dali. E o mendigo jamais saberia o que agora dizia sua placa, que trazia tanto som para sua latinha de esmolas.
"É primavera em Paris e não posso vê-la."

PS: Principal fábula publicitária, contada para as crianças desde pequenas em seus cursos de Comunicação.

PPS: Acabei deixando esse post incompleto na geladeira por uma semana. Foi uma vitória terminar hoje.




1 comentários:

Lee disse...

Eu li seu comentário no meu blog e uma coisa tenho que te dizer quanto ao que você disse: você pode não ter trabalhado num lugar que não era agência, mas as leis trabalhistas valem para todos! E a convenção nada mais é do que as leis trabalhistas aplicadas para a profissão. Se não te pagaram férias, não te pagaram 13º, não te pagaram benefícios de vale transporte, vale alimentação, não assinaram sua carteira, nem pagaram INSS: é processo na certa. Procure saber mais sobre isso. Leia mais, procure a justiça do trabalho sobre o que você pode fazer. Não sei se vale a pena, mas tira um pouco o peso da raiva de ter sido tão ingênua. Boa sorte com tudo e obrigada pelo seu comentário. E... vamos mudar o mundo? Haha...